quinta-feira, 10 de setembro de 2009

O papel social do esporte


Em uma sociedade moderna e globalizada onde as diferenças culturais e sociais são alvo de atenção de governantes e população em geral, cada vez mais a inclusão se faz necessária, não apenas por uma questão humanitária, mas até para o bom funcionamento de sistemas que buscam de alguma forma promover o bem comum.

Obviamente o mundo ideal é cada vez mais utópico e enquanto muitos se beneficiam da sensível diminuição de distâncias, que promove o conhecimento e a experimentação de estilos de vida que pareciam praticamente intangíveis há alguns anos, outros ainda sofrem com a falta de condições básicas para uma vida digna, e este fenômeno, ao contrário do que pode parecer, não se restringe a países pobres ou em desenvolvimento, como os da América Latina, África, Ásia e Leste Europeu.

Não é possível imaginar os países mais desenvolvidos como se fossem ilhas da fantasia, onde não há espaço para problemas sociais, que não passariam de manchetes de páginas internacionais de jornais e de grandes canais internacionais de notícias. As dificuldades, por algum motivo, estão lá também. Fazem parte de bairros pobres dos países ricos e dos lugares menos visíveis a turistas, muitas vezes de países como o Brasil, que visitam lugares onde acreditam haver apenas prosperidade.

Uma notícia que me atraiu a atenção nesta quinta-feira foi a visita do piloto britânico Lewis Hamilton à Copa do Mundo dos sem-teto, em Milão. Na foto acima ele aparece rodeado de competidores que, em sua essência, já são grandes vencedores por estarem participando deste evento. E quando se fala em uma competição como esta, normalmente o que vem à mente é que se trata prioritariamente de jogadores originários de países nos quais o desenvolvimento é precário e as condições de vida injustas com a maioria da população.

O fato é que eu assisti, recentemente, a algumas partidas da “Homeless Dutch Cup”, que nada mais é do que a versão holandesa do futebol dos sem-teto, que aconteceu em Amsterdam, no mês de agosto. Ali, como já relatei no próprio blog durante a viagem, foi possível constatar que mesmo em um país pequeno e rico, que transpira futebol por todos os poros, há um verdadeiro abismo entre as classes mais pobres e a classe média.

O que me impressionou, de fato, foi a estrutura montada para o evento. Uma arena em uma das praças mais movimentadas da cidade, aberta ao público, com camarote para convidados especiais e ampla cobertura da imprensa. Também havia patrocínio de grandes empresas ligadas ao esporte, como a NIKE. Tudo favorecia o comparecimento do público, e como se trata de um evento com bom planejamento e execução, o sucesso estava garantido antes mesmo de a bola rolar. Durante as partidas era evidente o orgulho de todos os participantes, que jogavam duro, mas com lealdade. Ao fim dos jogos sempre havia uma foto coletiva entre os adversários e o reconhecimento dos torcedores quando os participantes saiam da quadra. É claro que um evento como este, além de arrecadar fundos com patrocínios e venda de material de merchandising, também alertava para o desafio social e melhorava a auto-estima daqueles que nem ao menos têm onde morar, mas que naquele momento eram verdadeiros astros.

Pude também conhecer melhor o projeto social do jogador Edgar Davids, que não se distanciou de suas origens e ajuda centenas de garotos que estão em busca de um futuro melhor. E como ele faz isto? Com esporte, claro! São jovens que desenvolvem suas habilidades por meio do street soccer e, ainda que não se tornem campeões, aprendem a lidar com disciplina, respeito ao próximo e, principalmente, percebem que cada um impõe seus próprios limites, e por isso todos são capazes de chegar ainda mais longe. O melhor de tudo isso é que a estrutura para um projeto como este é bastante simples e de baixíssimo custo. Apesar de possuírem os recursos para melhorar a vida das pessoas com altos investimentos, lá eles preferem usar a criatividade e desenhar projetos altamente aderentes a comunidades menos abastadas e até a países como o Brasil e tantos outros.

Trata-se apenas de uma bola, um tênis, um professor e muita vontade de jogar. É lógico que existe toda uma metodologia envolvida, mas esta também está disponível. Empresas como Burger King e Red Bull investem, favorecendo ainda mais o sucesso, mas ainda para elas os valores envolvidos e o retorno são bastante convidativos.

Os atletas renomados entram com sua imagem e todo o resto funciona com profissionais comprometidos que vêem em ações como esta uma oportunidade de fazer do mundo um lugar um pouco melhor para se viver. Isto acontece em países ricos da Europa e nós nem ao menos sabemos. Hoje, milhares de pessoas tomaram conhecimento do futebol para sem-teto por conta do Lewis Hamilton. A pergunta que fica é quantos projetos como este existem no Brasil e são tocados por anônimos, que se sacrificam para dar a outras pessoas uma chance que muitas vezes não tiveram. Certamente não são poucos.

Sei que existe um projeto muito legal de boxe no Vidigal, Rio de Janeiro. Também sei que há muitos relacionados a futebol nos mais diversos cantos do Brasil. Todos dão oportunidades a quem talvez não viria a ter outra em toda a sua vida, e mais que formar atletas, eles formam cidadãos que se distanciam da criminalidade.

Indo para outro lado, tive o imenso prazer de conhecer, em 2008, por meio do querido Bebeto, campeão mundial de futebol pela Seleção Brasileira, em 1994, o Instituto Bola Pra Frente (http://www.bolaprafrente.org.br/), para crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade social. Trata-se de uma estrutura de mais de 11.000m2 no bairro de Guadalupe, Rio de Janeiro, que na época tinha 998 assistidos. Eram jovens que tinham reforço escolar, atividades físicas e alimentação durante o período em que não estavam na escola. É claro que o rendimento na sala de aula e o comportamento em casa melhorou muito para todos eles.

E tudo nasceu com Jorginho, atualmente auxiliar do Dunga na Seleção, que em sua juventude humilde morava em um prédio vizinho ao local onde hoje é o instituto, e certo dia sonhou que sonhou que ali era a Disney. Ele venceu na vida e realizou seu sonho. Não fez a Disney, mas fez muito mais pelas crianças de um dos lugares onde a Cidade Maravilhosa é apenas uma foto no cartão postal. Ali crianças comuns ganham novas oportunidades e ainda podem saborear um delicioso almoço ao lado de verdadeiros ícones do esporte e da vida, que aumentam ainda mais a esperança de dias melhores.

Estes são alguns exemplos de como o esporte pode fazer do mundo um lugar melhor, e não apenas para aqueles que ganham algum ou muito dinheiro com ele, mas também para aqueles que aprendem com ele o valor que tem o respeito, a disciplina, o companheirismo e a força de vontade.

E a dúvida que fica é com relação ao quanto fazemos de fato para que a sociedade seja cada vez mais justa. Não de uma maneira fantasiosa, mas dentro das possibilidades que cada um de nós. Hoje certamente eu vou dormir com essa na cabeça...

Nenhum comentário:

Postar um comentário